domingo, 9 de maio de 2010

Essas coisas dentro de mim

Eu tenho que fazer um esforço enorme para não tornar relevante todas essas coisas dentro de mim. Sim, porque todo mundo tem problemas, traumas, dificuldades, obstáculos. Eventualmente, surgem dores sem causa física, choros sem explicação, estômago doendo e uma dificuldade de sorrir com sinceridade. Todo mundo sofre de vez em quando de vazios existenciais, todo mundo tem problemas pra se relacionar, todo mundo gostaria de ser tanta coisa que não dá conta. Viver é difícil pra todo mundo, certo? Não,não quero terapia, remédios e reclamações chorosas no divã. Estou disposta a me encontrar e quero acreditar que posso fazer isso sozinha. Talvez eu não possa, mas preciso tentar até exaurir todas as minhas forças. É muito mais fácil se render a covardia de se estabelecer como inútil vítima de si mesma, incapaz de fazer sua vida melhorar através do auto-conhecimento e do próprio esforço. A grande dificuldade talvez seja entender de onde surgem essas coisas dentro de mim. Estranhamente, fui eu que coloquei elas aqui dentro. Mas o adorável inconsciente me fez ignorante. E muitas vezes não sei explicar os porquês. E quero respostas. Quero resolução, quero entendimento e não maneiras alienantes e paliativas de lidar com a dor. Ninguém quer isso. É por isso que nos dias atuais existem fontes inesgotáveis e de fáceis acesso ao prazer passageiro. As pessoas não querem se esforçar para alcançar a própria feicidade, elas querem apenas esparadrapos para a alma. Querem silenciar o vazio, a dor, a insatisfação e as frustrações com toda a mentira por trás de flashs de felicidade. E é também por isso que a incidência de doenças mentais aumentou milhões de vezes - mesmo havendo reconhecidamente uma glamourização do sofrimento, a realização de um número absurdo de diagnósticos equivocados e a indústria farmacêutica podre por trás de tudo isso faturando e incentivando horrores o adoecimento mental da humanidade. Apesar de todos esses fatos, realmente as pessoas estão padecendo cada vez mais de sofrimento mental. Por que elas não se conhecem, não se entendem, não se ajudam, não melhoram e nem sabem na verdade o que melhorar, para que e como. Existe um incentivo generalizado para viver sob a doentia e burra teoria de ataduras que professa que: para ser feliz você deve cuidar dos machucados da sua alma com anestésicos e esparadrapos. E não com remédios e medidas profiláticas. Um belo dia as pessoas percebem que sua alma foi invadida por tantos e tão dolorosos machucados que a vida tornou-se insuportável. E como vivem através da burra ideologia de conquista imediata da felicidade e do remédio instantâneo para o sanar dos males, elas simplesmente se entopem de remédios. Elas não querem saber dos motivos e nem como evitá-los. Elas não querem se encontrar, elas nem mesmo sabem que existem um ou vários caminhos que podem levar a busca de si mesmas - elas não foram feitas para pensar em construção de felicidade de maneira autêntica. A sociedade padronizou a felicidade: seja bonito, jovem e popular, ganhe dinheiro, case, tenha filhos e use roupas caras - você será feliz. As pessoas, em sua maioria, desconhecem o caminho do contestamento, do questionamento e a ação de se auto-interrogar. E durante muito tempo eu achei que esse era o caminho mais fácil - e talvez o único - para ser feliz. Afinal, eu sofria por questionar e refletir e rebater demais. Hoje entendo que ser feliz é uma eterna construção e que envolve um bucado de dor, um bucado de esforço e um questionamento incessante sobre si e o mundo. E é por isso que vai doer, mas não vou parar de tentar me encontrar.